quarta-feira, 14 de março de 2007

Sobre a depressão

Já não vejo mais razão para me levantar, para tomar banho ou escovar os dentes. Eu faço tudo isso, sem vontade, como se não fizesse, sem sentido, quando o que manda minha alma é fazer nada disso.
Tenho falta de ar e meu peito dói. Ando tão apático que nem preocupado eu consigo ficar (comigo é claro, me preocupo aflitivamente com aqueles que amo). Acho que meu organismo está desistindo aos pouquinhos, de forma tão imperceptível quanto é possível.
Na maior das verdades eu não consigo lutar contra mim mesmo e sei que estou só

Sei, ou ao menos sinto, que tenho ainda muita coisa a escrever...Sinto que não saí ainda do começo da minha obra. E me sinto enfermo, morrendo...
Morrendo!
Engraçado como nessas horas em que o ar me falta mais densamente, meu estômago arde mais agressivamente e as pontadas no peito são mais fortes, eu sinto uma estranha paz, uma paz muito grande e boa em meio ao desalento desordenado e perfeito. Mesmo com os braços e pernas moles, pesados e dormentes. Morrendo!

É assim mesmo, o dia está claro, quente e bonito. A claridade ofusca as vistas. Existe a natureza e parece tão frágil quanto eterna. Sábia e cruel. E eu aqui, profundamente entristecido.

Acho que algumas pessoas estão fadadas a viver pouco, esse é o tipo de situação desagradável que se tem de aceitar, tido que é inexorável e seria estúpido ficar reclamando ou lamentando.
Consola-me saber que existiram grandes seres humanos que viveram muito pouco e fizeram muito, o primeiro exemplo que bóia na minha mente é Álvares de Azevedo. Em contrapartida existiram e sempre existirão pessoas que viveram muito e pouco fizeram de grande ou belo, quando não nada.
Não considero isso algum tipo de injustiça, já que nessas divagações imbecis acabo chegando a algo próximo de uma conclusão alentadora. Acho até que cada um vive até esgotar-se, quando seca a fonte, quando não há mais o que produzir, definha merecida e completamente.
“Tudo murcha num dia, aquele que vive demais morre vivo” – Chateaubriand
Fernando Pessoa deixou seu Livro do Desassossego interminado, e segundo muitos, eu inclusive, é uma obra muito mais pura e genial do que se ele tivesse podado, tosado, refinado, ou feito qualquer coisa que o valha... Acho que todo grande artista morre antes do declínio.

Meus amigos incontáveis vezes me tiraram do buraco, mas chega uma hora que nem os braços mais longos e bondosos alcançam o fundo de um buraco tão profundo.

Talvez seja realmente tarde demais...
Meus devaneios já não são mais belos, minhas divagações me trazem imagens mentais horríveis.
Devaneios não diferem mais dos pesadelos medonhos que eu tenho quando durmo. Agora é pra valer. Toda a minha vida virou algum tipo de terror noturno depressivo.

Envolto nessa espera que me consome, nessa angústia que não tem fim

Ontem mesmo, durante a madrugada, chorei em silencio, sem violência, como alguém que acatou sua condição, acostumou-se a toda dor angustiante e só deixa escorrer as lágrimas pesadas sem conter nem forçar, por não suportar tanto peso, para apenas aliviar um pouco a alma.

Saiu. Sumiu na penumbra, andarilho da garrafa de Pernod Ricard gelada. Breu. As lágrimas que banhavam-lhe as faces eram quentes e invisíveis. Perdido.

Um poeta estuda a beleza. Exilado na noite.

Um comentário:

elenice mori disse...

Bruno, nao gosto de ler estes textos nos quais voce coloca seu estado "bruto". Prefiro sinceramente quando voce consegue transformar seus sentimentos mais duros em poesia.
Sei que estou sendo impiedosa, mas é uma opiniao sincera